Vida Real

Desfralde sem pressa: sinais de prontidão, rotina e o poder da nossa reação

Quem convive com criança pequena sabe que o banheiro deixa de ser um lugar privado. Tem brinquedo que vai parar na privada, plateia na hora do xixi e conversas longas sobre cocô. Quando chega o desfralde, esse universo ganha um capítulo novo, e pequenas atitudes do dia a dia ajudam bastante.

Existe idade certa?
Segundo o Manual de Orientação sobre Treinamento Esfincteriano, documento conjunto da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), os sinais de prontidão costumam aparecer entre 24 e 36 meses. O próprio manual destaca que a idade, sozinha, não é o melhor critério. A abordagem recomendada é orientada pela criança: o processo começa quando ela mostra que está pronta.

Sinais de que pode ser a hora

  • Fica seca por duas horas ou mais durante o dia.
  • Mostra com palavras, expressões ou gestos que vai fazer xixi ou cocô.
  • Se interessa por quem está usando o banheiro.
  • Consegue subir e abaixar a roupa.
  • Quer fazer as coisas sozinha e se orgulha disso.
  • Entende e segue comandos simples.
  • Se incomoda com a fralda molhada ou pede para trocar.

Penico ou vaso?
O penico costuma ser a escolha preferida no começo. A criança se sente mais segura, apoia bem os pés, e ele pode ir para qualquer cômodo. Vale deixar que ela ajude a escolher o modelo. Se a preferência for o vaso, o manual recomenda redutor de assento e apoio para os pés.

A nossa reação faz parte do processo
Esse ponto quase ninguém comenta. O manual orienta evitar termos pejorativos para o cocô e sinais de nojo, como dizer que a fralda está fedida. Quando a criança sente pressão ou percebe o assunto como algo sujo, ela pode começar a segurar xixi e cocô, e isso tende a dificultar o desfralde e o funcionamento do intestino.

Na prática, algumas trocas ajudam:

  • Em vez de “eca”, um “olha, saiu! Vamos dar tchau?”.
  • Em vez de bronca no escape, um “escapou, vamos trocar juntos?”.
  • Um nome combinado para xixi e cocô, usado por todo mundo que cuida da criança.

Rotina que ajuda

  • Convidar a criança para sentar no penico em momentos previsíveis: ao acordar, depois das refeições e antes de dormir.
  • Deixar poucos minutos por vez. O manual indica de 3 a 5 minutos, para que o penico não pareça castigo.
  • Elogiar a tentativa, mesmo quando o xixi escapou antes. A orientação é usar o elogio como reforço, sem doces ou prêmios.
  • Combinar o mesmo jeito de conduzir em casa, na escola e com os outros cuidadores.
  • Preferir roupas fáceis de tirar. Dias mais quentes costumam facilitar.
  • Escolher uma fase mais tranquila da família para começar. Mudança de casa ou chegada de um irmão, por exemplo, podem pedir um tempo antes.

Quando a criança resiste
Resistência é comum, principalmente com o cocô. O manual cita que cerca de 20% das crianças resistem a fazer cocô no penico durante o processo. Se a criança recusar, a sugestão é pausar por um a três meses e recomeçar com mais calma.

Quando conversar com o pediatra
Vale levar o assunto à consulta se a criança chegar aos 3 anos sem sinais de prontidão, aos 4 anos sem ter concluído o desfralde diurno, ou se houver dor para fazer cocô, intestino preso ou tentativas que não avançam. O ideal é que o pediatra acompanhe a fase desde os 2 anos.

Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Urologia. Treinamento Esfincteriano: Manual de Orientação, 2019.


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