
Um mundo maior, e o medo que vem junto
Meus filhos estudam em escola de currículo britânico, convivem com crianças de 15 nacionalidades diferentes numa sala de 25, escutam inglês o dia inteiro e já falam árabe. Entendem costumes que eu mesma ainda estou aprendendo.
Tem dias em que eu olho para eles e penso que estão crescendo com um mundo muito maior do que o meu na idade deles. Mas tem outros dias em que bate o medo: será que vão se sentir brasileiros? Será que vão sentir falta de uma infância que nunca conheceram no Brasil? Será que eu estou dando raízes suficientes enquanto a vida oferece tantas asas?
Existe um nome para o que meus filhos são
A socióloga americana Ruth Hill Useem cunhou, nos anos 1950, o termo third culture kid (criança de terceira cultura) ao observar famílias americanas vivendo na Índia. São crianças que crescem fora da cultura dos pais e acabam construindo vínculo com várias culturas ao mesmo tempo, sem pertencer inteiramente a nenhuma delas sozinha.
Saber que existe um nome para isso não tira o peso da pergunta, mas ajuda a entender que a inquietação que eu sinto não é falha minha. É parte do processo.
O que é casa, quando casa não tem um endereço só
Criar filhos em outra cultura é viver um equilíbrio constante. A gente quer que eles se abram para o mundo, mas também quer que saibam voltar para casa. E talvez casa, nesse caso, não seja um endereço.
Talvez seja a língua que a mãe fala quando dá bronca. O colo que vai ter sempre um sotaque. A história repetida sobre os avós. A bandeira que aparece na Copa do Mundo.
Tem dias que eu falo português e eles respondem em inglês. Acontece. Tem dias que a rotina engole tudo e a gente só tenta chegar inteiro até a hora de dormir. Mas aí, do nada, aparece uma palavra nova em português no meio da brincadeira. Uma música brasileira que vira trilha sonora da casa. Um deles pergunta como era o Brasil quando eu era pequena.
O que eu quero para eles
Eu não acredito que meus filhos precisem caber em uma só cultura. Talvez eles estejam aprendendo a carregar várias ao mesmo tempo, e talvez o meu trabalho como mãe não seja escolher uma identidade por eles, mas oferecer chão suficiente para que possam voar sem se perder.
Quero que meus filhos saibam se adaptar, e eles já são bons nisso. Mas também quero que saibam de onde vem o amor deles. Que respeitem outras culturas sem precisar apagar a própria. Que reconheçam o português, a voz da mãe, como território.
Porque eu achava que estava levando meus filhos para viver uma experiência internacional. No fundo, são eles que estão me ensinando a viver com mais abertura, mais curiosidade e mais vontade de preservar aquilo que, mesmo longe, continua sendo casa dentro da gente

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