
Não existe uma criança neste mundo que nunca tenha feito uma birra.
Elas acontecem em supermercados, escolas, restaurantes e, principalmente, dentro de casa. Fazem parte do desenvolvimento infantil. Ainda assim, reduzir uma birra a “falta de limites” ou “drama” é deixar de enxergar algo muito importante: por trás de toda explosão emocional existe uma criança tentando comunicar algo que ainda não consegue colocar em palavras.
No consultório, costumo dizer aos pais que as crianças falam através do comportamento muito antes de conseguirem falar sobre seus sentimentos.
Quando uma criança faz uma birra, quase sempre existe algo acontecendo dentro dela que ainda não foi compreendido. Há uma frustração que parece grande demais. Um desejo que não pôde ser realizado. Uma mudança interna que ela ainda não sabe nomear. E, muitas vezes, um sofrimento que nem ela mesma entende.
A birra é a linguagem possível de um cérebro que ainda está aprendendo a regular emoções intensas.
É como se a criança dissesse:
“Eu sei o que quero. Eu sinto isso com todo o meu corpo. E ainda não sei o que fazer quando a realidade me diz não.”
Por isso, embora a reação pareça desproporcional aos olhos adultos, a emoção vivida pela criança é absolutamente real.
O problema é que, diante dessa intensidade, muitos adultos sentem a necessidade de interromper rapidamente o comportamento, quando o que a criança mais precisa naquele momento é de alguém capaz de ajudá-la a atravessar a tempestade.
Isso não significa ceder.
Significa permanecer.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott dizia que a função dos adultos é sustentar emocionalmente a criança enquanto ela desenvolve recursos internos para lidar com a própria vida. Em outras palavras, emprestamos nossa calma até que ela possa construir a dela.
Por isso, durante uma birra, a criança precisa de duas coisas fundamentais: segurança e bondade.
Segurança para saber que os limites continuam existindo.
Bondade para perceber que continua sendo amada, mesmo quando está desorganizada.
Quando esses dois elementos estão presentes, algo muito importante acontece: a criança começa a desenvolver a percepção de que seus sentimentos podem ser acolhidos sem que ela precise ser dominada por eles.
E talvez exista uma reflexão ainda mais profunda por trás das birras infantis.
Muitas vezes nos incomodamos com elas porque, em algum lugar, perdemos a liberdade emocional que as crianças ainda possuem. Elas choram quando estão tristes. Demonstram raiva quando estão frustradas. Mostram entusiasmo quando estão felizes. Sentem com o corpo inteiro aquilo que nós, adultos, aprendemos a esconder.
Talvez não precisemos ensinar as crianças a sentir menos.
Talvez precisemos aprender a escutá-las melhor.
Porque toda birra carrega um pedido silencioso.
E quase sempre esse pedido é muito mais simples do que imaginamos:
“Você consegue ficar comigo enquanto eu tento entender o que estou sentindo?”

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