
Toda mãe precisa de uma aldeia
Existe uma pergunta que faço com frequência no consultório:
Quem está cuidando de você?
Quase sempre, antes mesmo da resposta, vêm as lágrimas. Porque muitas mães passam os dias cuidando de todos ao redor, dos filhos, da casa, do trabalho, do parceiro, das demandas infinitas da rotina e, aos poucos, deixam de existir como alguém que também precisa de colo.
Vivemos em uma época que celebra a independência, mas a maternidade nos lembra de uma verdade muito antiga: ninguém foi feito para cuidar sozinho de outro ser humano.
Por milhares de anos, os bebês foram recebidos por braços múltiplos. Havia avós, tias, irmãs, vizinhas e amigas. Enquanto uma mulher amamentava, outra preparava a comida. Enquanto uma descansava, outra embalava o bebê. A maternidade não era uma jornada solitária. Era uma experiência compartilhada.
Hoje, porém, muitas mulheres atravessam a transformação mais profunda de suas vidas praticamente sozinhas. E talvez seja justamente por isso que tantas mães se sintam cansadas, culpadas ou insuficientes.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott nos ensinou que não existe mãe perfeita. Existe a “mãe suficientemente boa”, aquela que cuida, repara, aprende e segue tentando. Mas existe uma parte da teoria de Winnicott que nem sempre recebe a mesma atenção: para que uma mãe consiga cuidar de um bebê, ela também precisa ser cuidada. Nenhuma mulher consegue sustentar sozinha o peso emocional da maternidade.
No consultório, vejo mães que se sentem fracassadas porque precisam de ajuda para limpar a casa, porque contratam uma babá algumas horas por semana ou porque pedem para alguém ficar com a criança enquanto descansam. Como se amor e exaustão fossem a mesma coisa. Mas não são. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É sinal de humanidade.
A verdade é que toda mãe precisa de alguém que pergunte como ela está. Precisa de alguém que segure o bebê para que ela possa tomar banho sem pressa. Precisa de alguém que a escute sem julgamentos. Precisa de alguém que a lembre que ela continua existindo para além da função materna.
E quando a família não está por perto, talvez seja necessário construir essa aldeia de outras formas. Às vezes ela surge em um grupo de mães. Em uma amiga que entende suas angústias. Em uma terapeuta. Em uma vizinha. Em uma doula. Em uma rede criada aos poucos, encontro após encontro, conversa após conversa.
A aldeia nem sempre é aquela que herdamos. Muitas vezes, é aquela que escolhemos construir. E há algo bonito nisso.
Porque, quando uma mãe encontra pessoas que a acolhem, algo dentro dela pode finalmente descansar. Ela já não precisa ser forte o tempo todo. Já não precisa provar que dá conta de tudo. Pode simplesmente ser humana.
Com o passar dos anos, os filhos crescem. As noites mal dormidas diminuem. A intensidade dos primeiros anos se transforma em novas formas de presença. E, pouco a pouco, a mulher começa a reencontrar partes de si que pareciam ter ficado esquecidas. Mas essa travessia fica muito mais leve quando é feita acompanhada.
Talvez a maternidade seja justamente isso: descobrir que o amor por um filho é imenso, mas que ele não foi feito para ser carregado por um único par de braços. Porque toda criança precisa de uma mãe suficientemente boa.
E toda mãe precisa de uma aldeia inteira para sustentá-la enquanto aprende a ser uma.

Compartilhe com quem
também vai gostar!











